"A diferença entre a vida e a arte é que a arte é mais suportável." Bukowski
Mostrando postagens com marcador Poesia Falada. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poesia Falada. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Autopsicografia



Autopsicografia, de Fernando Pessoa. 
Por Paulo Autran.


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.



27/11/1930

domingo, 5 de junho de 2011






Quando era jovem, eu a mim dizia:


Quando era jovem, eu a mim dizia: 
Como passam os dias, dia a dia, 
E nada conseguido ou intentado! 
Mais velho, digo, com igual enfado: 
Como, dia após dia, os dias vão,
 Sem nada feito e nada na intenção! 
Assim, naturalmente, envelhecido, 
Direi, e com igual voz e sentido:
 Um dia virá o dia em que já não
 Direi mais nada. 
Quem nada foi nem é não dirá nada.




Fernando Pessoa.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

"...E a sede infinita"

                                   Head to Head, 1908. Por Edvard Munch.



"Notícias Amorosas", de Carlos Drummond de Andrade.
Por Paulo Autran.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

"...Chamas amor, aquilo que eu não chamo."



Por Othon Bastos.


Versos de amor

Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a . . ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.

Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!

Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.

Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, o observas.

Porque o amor, tal como eu o estou amando,
E Espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!

É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima, e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
Como anda a garça acima dos açudes!

Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Marsias - o inventor da flauta -
Vou inventar também outro instrumento!

Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo
Ambiciono, que o idioma em que te eu falo
Possam todas as línguas decliná-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!

Para que, enfim, chegando à última calma
Meu podre coração roto não role,
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro d'alma!

Augusto dos Anjos
(1884-1914)

Musique pour quelque chose


MusicPlaylistView Profile
Create a playlist at MixPod.com